Um Dedo de Prosa Poética

Ícaro Beranger



Sábado, Novembro 26, 2005

U m   o l h a r   s o b r e   o s   o l h o s




"Há certas coisas no mundo
que eu olho e fico surpreso:
uma nuvem carregada
se sustentar com o peso
e dentro de um bolo d'água
sair um corisco aceso."

O Espetáculo -- Cordel do Fogo Encantado (album: O Palhaço do Circo sem Futuro)
Existem muitas formas de se ver. Existe o olhar que não se conforma, o que deforma, o que se põe a ascender... Candeias de nosso corpo, cadeias de sentimentos, tantas coisas são os olhos, tantos molhos destas chaves que abrem e sabem outros tantos peitos!

Podemos levar os olhos afeitos a tanta mudança, ter olhos de assassino ou de criança. Podemos ter olhos cansados ou conservá-los meninos. Podemos mesmo não ver quando olhamos, pois muitas vezes sequer enxergamos por tanto olhar.

Por fim, pode-se conservar nos olhos a surpresa, como quem represa a natureza do espanto. Para tanto, deve-se desatar o que se pesa nos olhos e untá-los com óleos da inocência que ainda não se desfez, para que se conserve a ciência de olhar o mundo pela primeira vez.



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ÍCARO BERANGER - 11:35 PM


Terça-feira, Novembro 01, 2005

O s   N ã o - L u g a r e s


Delacroix -- A Liberdade guiando o Povo

Quando começamos a descrer de utopias? Quando nossas mentes tornam-se frias a elas? Quando ocorre a defenestração de nossos sonhos e nas janelas permanecem medonhos horizontes de chão sem fim?

É assim, um dia a gente deixa de lutar, de buscar, de sonhar, de acreditar na metamorfose do mundo! E o fundo sem fim da indiferença ronda, sonda e arromba nossas portas, nossos portos, nossas esperanças mortas e nossos passos tortos. Nesta hora, somos tijolos compondo o muro, seguro, da castração. Neste agora estamos no solo maldito e escuro da desilusão.

Não há utopias -- lugares dos sonhos -- pois a pragmática do mundo, nada estática, afundou fundo os dias dedicados a elas. Um solvente universal arremessou pelas janelas da alma os não-lugares para realizar a calma operação da venda de sonhos sem vida pela estabelecida valoração de um vil metal.


Edição com imagens do filme The Wall


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ÍCARO BERANGER - 10:34 AM


P e r f i l

Sou dado a sonhos altívolos. Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade. Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo. Afogado na aspiração de ser alado como um deus, sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.

Sou afeiçoado a sons altíssonos. Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas. Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde. Acossado no desejo de ser como Orpheu, sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.

Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo. Recuso toda advertência que castra o vôo, mesmo pagando com a morte a ousadia. Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida, muitos preços por ousar viver. A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa, mesmo quando lhe grassa a lassidão. E eu só vivo da vontade de potência.

Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu. Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado. Sim, este sou eu...

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