D o s E s q u a d r o s e d o s Q u a d r a n t e s d e G a i a
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
(Esquadros - Adriana Calcanhoto)
Deixa eu encostar meus ouvidos no chão para tentar sentir a pulsação da Terra. Erra meu sentir, vagando por vagas, adagas e adegas! Erra o meu desejo, pois planejo ouvir uns passos tocando Gaia do outro lado da praia, no casco de uma cidade ignota, verdade rota às margens de um rio.
Já me enfastio, não do rio, mas das molduras que mo trazem. Meu mundo é quadrado, emoldurado em janelas, em quimeras, bestas-feras em mim. Meu mundo é colorido, é florido, mas não é quente. Por isso, quero colar meu ouvido no ventre de Gaia, cravar meus dentes no seu dentro, no seu centro, para ver se me queimo neste magma que teimo esvaziar em mim.
Meus jardins têm flores, têm cores, mas não odores. As pessoas são tecidas de palavras, são lavras de letras, mas não têm rostos, não têm pés e nem cabeças. Algumas são lembranças, outras distâncias, outras são promessas... Gaia são muitas peças num extático, fantástico quebra-cabeça errante.
Meus quadrantes, meus quadrados, esquadro-os nas janelas. Esqueço de pôr meus ouvidos no chão, até porque Gaia, nua, não está no chão nem está na rua... Aparece-me na tela. Tem a medida de meus quadros, meus aros, meus esquadros binários, os mais vários de meus vãos, mais pertos dos dedos do que das mãos.
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A E s t é t i c a d o A c a s o

Perguntas, tantas juntas, povoam o caminho. Aninho-me à sombra da dúvida. Sonda-me, túmida, a interrogação. São as mesmas perguntas que estão há milênios rondando o espanto. Certezas são dadas, pregadas, vendidas e ventiladas; não comprovadas, no entanto.
A perplexidade de haver mundo lança o imperativo do sentido, categórico imperativo ao fundo do espanto. Quantas respostas, quantos cantos se erigem pela incognoscibilidade da questão. Há sentido, há destino, há direção? Ou a destinação de tudo é o acaso? Não se faz músicas com sons a esmo, nem mesmo com tons por descaso jogados ao vento, ao acaso, à ondulação. Mas pode ser que a beleza do mundo, o profundo mistério da vida, enfim, a resposta querida esteja contida, não numa explicação, mas num silêncio.
Silencio, pois o ruído pode produzir a audição, me propõem as veredas que sigo, as alamedas que percorro enquanto persigo alguma explicação. De um esbarrão pode brotar um beijo, desejo que de um engano, uma amizade, temo que de um silêncio, uma maldição. Toda ordem de inesperados observa nossas esquinas, nossas quinas e adentra nossa casa, nossos lados, nossos corações.
Que regente logra conduzir esta louca orquestra, quem logra cerzir um vestido de frestas de sentido e, ainda assim, pôr botões harmonia no dia, na vida, no universo, como quer faz canções e versos? Que ética seguem os deuses e, se for o caso, qual é a estética do acaso?
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P e r f i l
Sou dado a sonhos altívolos. Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade. Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo. Afogado na aspiração de ser alado como um deus, sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.
Sou afeiçoado a sons altíssonos. Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas. Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde. Acossado no desejo de ser como Orpheu, sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.
Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo. Recuso toda advertência que castra o vôo, mesmo pagando com a morte a ousadia. Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida, muitos preços por ousar viver. A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa, mesmo quando lhe grassa a lassidão. E eu só vivo da vontade de potência.
Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu. Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado. Sim, este sou eu...
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