Ícaro Beranger


Segunda-feira, Abril 19, 2004

A p o c a l y p t i c   s t r i n g s


O primeiro anjo tocou a trombeta. Saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados à terra; e queimou-se uma terça parte da terra, uma terça parte das árvores e toda erva verde. (Ap 7,7)


Culto apocalíptico, distorções e cellos enlouquecidos. Virtuoses, vultos, sensações de um som em conflito.

A revelação da prece desperta instintos e estertores. No vão das palavras, consinto as cores do som, dos acordes, dos quatro cavaleiros desta orquestra. Cada meio-tom arranca convulsões da destra, confissões da testa, da boca, louca em seu ricto de profanação.

A hiper-ventilação de meu cérebro desassossega. A carne não nega, é muita crueldade a profusão destas loucuras. É uma saudade escura, desejosa de um não-sei. Espinhos de rosa rasgam o que entreguei de mim: a alma. É um caos sem fim, sem calma, é toda uma selvagem fauna em mim. As paragens mais díspares se encontram no fim do mundo. Estes acordes ímpares encontram em mim solo fecundo.

Se eu reencarnasse, quereria ser um cello, eis a face de meu belo desejo metafísico, do sobejo abalo sísmico que esta plangência me traz. No meu livro da Revelação, jamais a ciência de sete trombetas. Sob o peso da emoção de um cometa, confesso, presto, que em meu final dos tempos me contento, me refestelo, com um quarteto de cellos.

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ÍCARO BERANGER - 7:34 AM


P e r f i l

Sou dado a sonhos altívolos. Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade. Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo. Afogado na aspiração de ser alado como um deus, sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.

Sou afeiçoado a sons altíssonos. Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas. Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde. Acossado no desejo de ser como Orpheu, sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.

Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo. Recuso toda advertência que castra o vôo, mesmo pagando com a morte a ousadia. Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida, muitos preços por ousar viver. A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa, mesmo quando lhe grassa a lassidão. E eu só vivo da vontade de potência.

Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu. Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado. Sim, este sou eu...

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