Um Dedo de Prosa Poética

Ícaro Beranger



Terça-feira, Março 30, 2004

E n c a n t a d o r   d e   G a i v o t a s


p/ Paula

O céu azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos como uma fuga de Bach
Manuel de Barros — De Passarinhos




Quisera me espalhar na natureza, encontrar a beleza azul da imensidão; saber a gramática do chão e dos elementos, a matemática dos ventos e das mãos. Encantaria animais com a poesia que já não cantam mais os poetas hodiernos. Derramar-me-ia terno nos mares, nos ares, nos perfumes e nos lares somente para sorver a eternidade do verso, viver o meu anverso feito canção.

Penso que meus sussurros chegariam aos teus ouvidos, aos teus sentidos, com mais estrondo do que um trovão. Bastaria um ato de vontade para ofertar-lhe a potestade dum ramo de poesias bem olentes, colher flores que estariam bem contentes em comunicar-lhe a complexa criação. Bastaria um pouco de desejo para criar asas, sobrevoar casas, oceanos, o Tejo... e levar um céu azul (ou cinéreo) numa aquarela para com ele descortinar tua janela, levantar o véu de teus olhinhos (tão belos) para te mostrar, ao som de um violoncelo, a poética de um instante-passarinho.

Far-me-iam minhas asas, destarte, uma gaivota; mudaria de meu vôo a rota tendo o céu e o Tejo por estandarte, apenas para mirar tua face e sorver os poemas de teus olhos, brilhantes e plenos de mar (de rosas, e também de abrolhos). Far-me-iam meus lábios, destarte, brisa — o vento que se suaviza — ofertar-te-ia (com mais sinestesia que com arte) os beijos do final da tarde, quando o sol, sem alarde, vai-se pôr.

Se não tenho o sabor deste encantamento, acho que naquele mágico momento em que as asas da gaivota que sobrevoava o Tejo te comunicaram meu ser, pude conhecer-lhe o gosto. Minha poesia fez-se eterna na lembrança em que me fiz presente, na gaivota que te olhou o rosto e se fez permanente nas asas olentes destes versos, que misturaram para sempre os nossos (tão contíguos e descontínuos) universos.



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ÍCARO BERANGER - 8:46 AM


Sábado, Março 13, 2004

O   S i l ê n c i o   O n t o g e n é t i c o


"São as palavras mais silenciosas as que trazem a tempestade. Pensamentos que chegam com pés de pomba dirigem o mundo."
Friedrich Nietzsche -- Assim Falou Zaratustra


Em silêncio, cresce o homem ao redor do homem. Ele esquece que as coisas não somem: tornam-se. As coisas ornam-se de porvir.

A pequena gota anuncia a tempestade que há de vir. A suave brisa já divisa a qualidade do tufão que se insinua. A mulher nua sinaliza o turbilhão dos prazeres incontidos. Naturais, bemóis ou sustenidos, todos os tons, cientes de seus deveres, se fazem presentes nos sons que acalantam.

O que há no mundo? Profundos entes que cantam as suas metamorfoses. Um campo de múltiplas psicoses, últimas escleroses. No mundo há os rios que se transformam, os banhos que se renovam, perceptos que ganham forma, como os de Heráclito. O ser no mundo se apresenta apenas como uma efemeridade, uma singularidade pronta a tornar-se. Um processo aponta e faz o mundo, traz o fundo do sem fim, o estopim da poesia.

Uma sinfonia começa, às vezes, com uma breve e desconexa melodia. Um homem começa sua vida numa célula. Uma libélula lida primeiro com o seu estado larva. Os amores são banhados primeiro no véu da ansiedade. Uma longa saudade é sentida dia após dia.

O silêncio de um pensamento o espalha do momento concebido ao átimo átomo de um novo mundo construído ao fundo de nós.

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ÍCARO BERANGER - 11:13 AM


P e r f i l

Sou dado a sonhos altívolos. Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade. Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo. Afogado na aspiração de ser alado como um deus, sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.

Sou afeiçoado a sons altíssonos. Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas. Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde. Acossado no desejo de ser como Orpheu, sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.

Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo. Recuso toda advertência que castra o vôo, mesmo pagando com a morte a ousadia. Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida, muitos preços por ousar viver. A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa, mesmo quando lhe grassa a lassidão. E eu só vivo da vontade de potência.

Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu. Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado. Sim, este sou eu...

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