Um Dedo de Prosa Poética

Ícaro Beranger



Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004

F o g o   a n d a l u z

Verde que te quiero verde.
Verde vientos. Verde ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Federico García Lorca — Romance Sonámbulo




Debulhada está minh'alma, como o trigo. Este som faz isto comigo, e perde a palma de minha mão no fogo andaluz. A guitarra seduz, plange a voz que canta, encanta a voz que chora, que lamenta o longe. Em algum onde, lá em Andaluzia, a poesia ainda vive como outrora.

Agora, não é preciso visitar Córdoba nem conhecer as ruas de Sevilha. Minha alma palmilha estas estradas que diviso, pela poesia de um tal Federico, pelo rico som daquelas paragens, daquelas miragens espanholas, daquelas castanholas tão ciganas, tão gitanas, tão sacramente profanas.

Festa pela fresta dos sentidos, esquecidos nos vagares destes campos. A viola pelos lares de meus cantos penetra o rubro sangue e a rubra rosa em mim. Ai, Sevilha, tudo que sei de tua lua prateada não aprendi nas tuas ruas, mas nas minhas. Meu pé não te caminha, mas o faz os meus sentidos, confundidos na lubricidade, na lascívia deste cello que imita a tua voz.

Na foz lânguida deste meu rio, forma-se o teu mar viril. A virilidade destes acordes, destas vidas, é contraste em minha tibieza. Somente nos encontramos na beleza de alguns versos, que eu só sei pressentir por carpir minha fraqueza e desejar a aurora deste outrora que nunca tive, mas vive latente a latejar sem fim, sem mim... que vive quente como uma boca carmesim.

Minha sensação é estranha, ao mirar o barco, que descreve um arco sobre o mar, e o cavalo na montanha. É como se a bailarina espanhola, na manhã pequenina e sem fim, se despisse pagã e eternamente p'ra mim.



Comentar:


ÍCARO BERANGER - 10:29 AM


Domingo, Fevereiro 08, 2004

M a r   d e   H i s t ó r i a s 
o u
A B i b l i o t e c a d e R o s a n a


Para Rosana

A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono e a circunferência é inacessível.
Jorge Luis Borges -- A Biblioteca de Babel


O globo prenuncia voltas ao mundo. Aprofundo-me na poesia, na prosa, nas dúzias de rosas que permeiam as páginas plurais destas ávidas estantes, que recheiam as imaginações com constantes pérolas.

Coloridas capas, capítulos, contos, etapas da história de Rosana, que preenche sua memória travando diálogos impertinentes com seus livros. São, sobretudo, belos. São singelos nos seus amores, nas suas dores, nos sabores e odores que silentes exalam. Rosana veste seus trajes de banho, despe-se deste mundo às vezes estranho e mergulha em seu mar de histórias.

Seus autores, seus amores, seus olores imiscuem-se. Na retina, fatigada de tanto pó estéril, formam-se regaladas imagens multicores, de um simbolismo etéreo e permanente em sua volatilidade. Ao longe, onde uma saudade anda perdida, nova vida já se ergue na potência da vontade.

Sua biblioteca é infinita, pois não se pode banhar duas vezes -- meu pensamento recita -- nas águas do mesmo livro. Sem permanência possível, sensível é a mudança, a dança dos sentires, dos devires, dos sentidos. Os caudalosos rios, torrentes de letras quentes, renovam suas águas e nossos olhos, abrolhos de nossa alma.

Há mil caminhos a serem percorridos, ouvidos na biblioteca. Além disso, nesta sagarana, cada livro lido a alma de Rosana disseca...

Comentar:

ÍCARO BERANGER - 1:42 PM


P e r f i l

Sou dado a sonhos altívolos. Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade. Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo. Afogado na aspiração de ser alado como um deus, sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.

Sou afeiçoado a sons altíssonos. Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas. Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde. Acossado no desejo de ser como Orpheu, sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.

Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo. Recuso toda advertência que castra o vôo, mesmo pagando com a morte a ousadia. Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida, muitos preços por ousar viver. A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa, mesmo quando lhe grassa a lassidão. E eu só vivo da vontade de potência.

Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu. Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado. Sim, este sou eu...

Arquivo

Blog Antigo



on-line


Blogs:

Alma em Punho
Betamania
Sede em Frente ao Mar

Camuflagens
Blog da Ruiva
Dequinh@
DesnudaS
Diálogos de um amigo imaginário
Diálogos Impertinentes
Eu do Avesso
Fragmentos de Carolina
Ipsis Litteris
Letras Proibidas
Literatus
Meu Cantinho -- Lucia
Minha Alma
Minimalist
Pulsar Poético
Ritinha
Simplesmente Outono
Teofilo Tostes
A Vitrolinha

Créditos:

Thakira
Blogger Brasil