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TEOFILO TOSTES - 2:26 AMS o r r i s o s e m C a m u f l a g e m
"Seja como for, recriar a vida também é vivê-la (...)"
(APC, num comentário em seu próprio blog)
(para APC e Helena Sofia)
Das dores, extraio o espanto filosófico. Dos sabores, extraio o encanto de um sorriso, mesmo indiviso, velado, camuflado; deflagrado ou não. E gozo a alegria sem temer as conseqüências do abismo, pois o que resta nas frestas da gente é memória, é história, é a glória da vida. Ao que me convida a minha asa não renuncio por temer o chão. Porque na finitude do não me engendro, me arquiteto, me poeto.

Há tantas formas de felicidade quantos sorrisos que nos cabem no rosto. Mesmo entre orvalhos noturnos, saudades, o gosto de uma alegria sói nos visitar. Mesmo se soturnos os baralhos do acaso, mesmo entre o que dói, não há descaso com o riso. E as alegrias atravessam oceanos, como a poesia vence o tempo e combate os anos, laureando alguns com a imortalidade.
Duas luzes serenas, alegrias amenas, tenras e ternas, venceram um Atlântico para me chegar. Duas lusitanas mensagens vieram fazer festa em minhas íntimas paisagens. Ambas são alegrias moldadas na chama das letras, letras que vieram de Lisboa me alcançar. Uma me veio por meio de uma moça incógnita, cujo nome suponho, mas aqui não exponho por não saber se eu soube adivinhar. A outra alegria que me coube, veio-me por meio da carta de uma outra moça, que sabe a incógnita por trás de meu nome. Numa amizade antiga ou iminente, a felicidade premente não é miragem. Por isso sorrio. Sou rio, heraclitianamente. E tenho sorriso sem camuflagem...
(Escrito de alegria em agradecimento à homenagem que recebi de APC em seu blog Camuflagens (http://www.camuflagens.blogspot.com/) e à carta que recebi de minha amiga Helena Sofia.)
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A m o r , m e c h a m a . . .
"E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada"
(O meu amor -- Chico Buarque de Hollanda)
(para ti, meu amor)
Quero repousar minha vida sobre teus seios, teus meios, teus entremeios. E me derreter inteiro sobre teu corpo, sobre teu cheiro morno de paixão. Meu coração salta com teus beijos. E tu sabes bem os desejos do meu beijar, do meu tocar, do meu amar...

A poesia dos nossos corpos deve repetir a das nossas almas. Numa pressa toda calma que é afã. É manhã. És manhã (com o adjetivo só teu e meu) em mim. És meu jardim de delícias, de carícias, de malícias. A música que mais gosto de cantar. Eu, que aprendi da música que devo te amar devagar e urgentemente, te amo mais. Eu te amo sem enquanto, só presente. Eu te amo tanto, tanto, tanto!
Depois de espasmos, orgasmos; depois de o cosmo revirar, quero olhar nos teus olhos e me encontrar na tua ternura. Na tua candura. No formato exato de teu rosto, de teu gosto. Quero teu sorriso escancarando as minhas janelas, as minhas tramelas despregadas no chão. Quero tua mão na minha, pois neste compasso caminha meu coração.
Quero tuas costas nuas, quero caminhar por tuas ruas e te esculpir com minhas mãos. Assim, recomeçamos um amor que não tem fim, um torpor que é sempre assim: só amar. E o que pode o homem senão conjugar este verbo transitivo direto e buscar o objeto que ele pede, necessita, ordena?
Um amor não se condena. Por isso, meu coração se acelera quando, entre a espera e a delícia, escuta: "Amor, me chama de tua puta"!
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S o n s c o n t e m p o r â n e o s d e u m a a l m a b a r r o c a
"Dáme fe, dáme alas,
dáme fuerza
para sobrevivir
en este mundo."
(Fe -- Maná)
Para Tatiana Mendes de Souza
Tenho impressão de ouvir tua alma, quando o som de um maná me ensalma os ouvidos. Um maná de contornos profanos, ritmo dissoluto. Um maná contemporâneo, perdido como todos nós num mundo sem absolutos nem fundamentos. Um maná que é sustento sonoro para devaneios, para passeios sobre a eternidade das águas.

Tenho impressão de que esta música mestiça, que atiça todas as primitivas danças do corpo, exala tua sensualidade. Talvez seja pelo encontro com tua alma barroca, louca dualidade de quereres e sensações. Talvez por conjunções astrológicas, pela lógica conflituosa do céu e do mundo, dos teus olhos garços e do teu corpo que é rosa branca e lua desejante.
Tenho impressão de ser delirante toda essa atmosfera sonora de cais e loucura. Porque há uma aurora em cada procura, uma dualidade em cada fé. Porque o homem é um ser que procura a verdade e vive do que não é...
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A A l m a d e u m P o e t a
Para Heloísa Dias Gramari
A alma de um poeta precisa de alimento, precisa da ração diária de lirismo e contemplação, momentos de ascese contra o abismo da maquinação desumana.

Precisa da flor, mesmo a insana que brota no asfalto, se não fica falto de cor. Assim como precisa de ar seu corpo, precisa de poesia sua alma. Precisa da calma contemplativa para digerir o instante que vem, para pegar o trem da fantasia.
A alma de um poeta também precisa ser orvalhada, precisa espalhar por páginas toadas de sons e lágrimas. Nefelibatas não desconhecem o valor da luta, nem o suor da labuta e do pão.
Precisa de risos e sorrisos um poeta. Precisa gargalhar até doer seu ventre, seu entre, e seu corpo todo ressonar o riso. Pois a alegria é elemento, é alimento vital à vida, à poesia, aos sentidos.
A alma de um poeta precisa da beleza. Ela é como a água na natureza. Acesa a candeia dos encantos, dos cantos, dos mantos, dos santos (quiçá), a indiferença é pecado. Mas minha crença não me permite crer que ante o belo haja ser que não se prostre nem se mostre extasiado.
Um poeta não precisa, no entanto, de muitas iguarias sobre a mesa de um palacete. Um verde nos olhos viçado e realçado na poesia de um riso amigo já lhe é um banquete...
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Existem muitas formas de se ver. Existe o olhar que não se conforma, o que deforma, o que se põe a ascender... Candeias de nosso corpo, cadeias de sentimentos, tantas coisas são os olhos, tantos molhos destas chaves que abrem e sabem outros tantos peitos!
U m o l h a r s o b r e o s o l h o s

"Há certas coisas no mundo
que eu olho e fico surpreso:
uma nuvem carregada
se sustentar com o peso
e dentro de um bolo d'água
sair um corisco aceso."
O Espetáculo -- Cordel do Fogo Encantado (album: O Palhaço do Circo sem Futuro)
Podemos levar os olhos afeitos a tanta mudança, ter olhos de assassino ou de criança. Podemos ter olhos cansados ou conservá-los meninos. Podemos mesmo não ver quando olhamos, pois muitas vezes sequer enxergamos por tanto olhar.
Por fim, pode-se conservar nos olhos a surpresa, como quem represa a natureza do espanto. Para tanto, deve-se desatar o que se pesa nos olhos e untá-los com óleos da inocência que ainda não se desfez, para que se conserve a ciência de olhar o mundo pela primeira vez.

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O s N ã o - L u g a r e s
Quando começamos a descrer de utopias? Quando nossas mentes tornam-se frias a elas? Quando ocorre a defenestração de nossos sonhos e nas janelas permanecem medonhos horizontes de chão sem fim?
É assim, um dia a gente deixa de lutar, de buscar, de sonhar, de acreditar na metamorfose do mundo! E o fundo sem fim da indiferença ronda, sonda e arromba nossas portas, nossos portos, nossas esperanças mortas e nossos passos tortos. Nesta hora, somos tijolos compondo o muro, seguro, da castração. Neste agora estamos no solo maldito e escuro da desilusão.
Não há utopias -- lugares dos sonhos -- pois a pragmática do mundo, nada estática, afundou fundo os dias dedicados a elas. Um solvente universal arremessou pelas janelas da alma os não-lugares para realizar a calma operação da venda de sonhos sem vida pela estabelecida valoração de um vil metal.

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D o s E s q u a d r o s e d o s Q u a d r a n t e s d e G a i a
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
(Esquadros - Adriana Calcanhoto)
Deixa eu encostar meus ouvidos no chão para tentar sentir a pulsação da Terra. Erra meu sentir, vagando por vagas, adagas e adegas! Erra o meu desejo, pois planejo ouvir uns passos tocando Gaia do outro lado da praia, no casco de uma cidade ignota, verdade rota às margens de um rio.
Já me enfastio, não do rio, mas das molduras que mo trazem. Meu mundo é quadrado, emoldurado em janelas, em quimeras, bestas-feras em mim. Meu mundo é colorido, é florido, mas não é quente. Por isso, quero colar meu ouvido no ventre de Gaia, cravar meus dentes no seu dentro, no seu centro, para ver se me queimo neste magma que teimo esvaziar em mim.
Meus jardins têm flores, têm cores, mas não odores. As pessoas são tecidas de palavras, são lavras de letras, mas não têm rostos, não têm pés e nem cabeças. Algumas são lembranças, outras distâncias, outras são promessas... Gaia são muitas peças num extático, fantástico quebra-cabeça errante.
Meus quadrantes, meus quadrados, esquadro-os nas janelas. Esqueço de pôr meus ouvidos no chão, até porque Gaia, nua, não está no chão nem está na rua... Aparece-me na tela. Tem a medida de meus quadros, meus aros, meus esquadros binários, os mais vários de meus vãos, mais pertos dos dedos do que das mãos.
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A E s t é t i c a d o A c a s o

Perguntas, tantas juntas, povoam o caminho. Aninho-me à sombra da dúvida. Sonda-me, túmida, a interrogação. São as mesmas perguntas que estão há milênios rondando o espanto. Certezas são dadas, pregadas, vendidas e ventiladas; não comprovadas, no entanto.
A perplexidade de haver mundo lança o imperativo do sentido, categórico imperativo ao fundo do espanto. Quantas respostas, quantos cantos se erigem pela incognoscibilidade da questão. Há sentido, há destino, há direção? Ou a destinação de tudo é o acaso? Não se faz músicas com sons a esmo, nem mesmo com tons por descaso jogados ao vento, ao acaso, à ondulação. Mas pode ser que a beleza do mundo, o profundo mistério da vida, enfim, a resposta querida esteja contida, não numa explicação, mas num silêncio.
Silencio, pois o ruído pode produzir a audição, me propõem as veredas que sigo, as alamedas que percorro enquanto persigo alguma explicação. De um esbarrão pode brotar um beijo, desejo que de um engano, uma amizade, temo que de um silêncio, uma maldição. Toda ordem de inesperados observa nossas esquinas, nossas quinas e adentra nossa casa, nossos lados, nossos corações.
Que regente logra conduzir esta louca orquestra, quem logra cerzir um vestido de frestas de sentido e, ainda assim, pôr botões harmonia no dia, na vida, no universo, como quer faz canções e versos? Que ética seguem os deuses e, se for o caso, qual é a estética do acaso?
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M e l o d i a S e n t i m e n t a l
Acorda, vem ver a lua
que dorme na noite escura
que surge tão bela e branca
derramando doçura
clara chama silente
ardendo meu sonhar
As asas da noite que surgem
e correm o espaço profundo
oh, doce amada, desperta
vem dar teu calor ao luar
Quisera saber-te minha
na hora serena e calma
a sombra confia ao vento
o limite da espera
quando dentro da noite
reclama o teu amor
Acorda, vem olhar a lua
que brilha na noite escura
querida, és linda e meiga
sentir meu amor e sonhar
Composição: Dora Vasconcelos
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A p o c a l y p t i c s t r i n g s
O primeiro anjo tocou a trombeta. Saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados à terra; e queimou-se uma terça parte da terra, uma terça parte das árvores e toda erva verde. (Ap 7,7)
Culto apocalíptico, distorções e cellos enlouquecidos. Virtuoses, vultos, sensações de um som em conflito.
A revelação da prece desperta instintos e estertores. No vão das palavras, consinto as cores do som, dos acordes, dos quatro cavaleiros desta orquestra. Cada meio-tom arranca convulsões da destra, confissões da testa, da boca, louca em seu ricto de profanação.
A hiper-ventilação de meu cérebro desassossega. A carne não nega, é muita crueldade a profusão destas loucuras. É uma saudade escura, desejosa de um não-sei. Espinhos de rosa rasgam o que entreguei de mim: a alma. É um caos sem fim, sem calma, é toda uma selvagem fauna em mim. As paragens mais díspares se encontram no fim do mundo. Estes acordes ímpares encontram em mim solo fecundo.
Se eu reencarnasse, quereria ser um cello, eis a face de meu belo desejo metafísico, do sobejo abalo sísmico que esta plangência me traz. No meu livro da Revelação, jamais a ciência de sete trombetas. Sob o peso da emoção de um cometa, confesso, presto, que em meu final dos tempos me contento, me refestelo, com um quarteto de cellos.
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E n c a n t a d o r d e G a i v o t a s
p/ Paula
O céu azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos como uma fuga de Bach
Manuel de Barros De Passarinhos
Quisera me espalhar na natureza, encontrar a beleza azul da imensidão; saber a gramática do chão e dos elementos, a matemática dos ventos e das mãos. Encantaria animais com a poesia que já não cantam mais os poetas hodiernos. Derramar-me-ia terno nos mares, nos ares, nos perfumes e nos lares somente para sorver a eternidade do verso, viver o meu anverso feito canção.
Penso que meus sussurros chegariam aos teus ouvidos, aos teus sentidos, com mais estrondo do que um trovão. Bastaria um ato de vontade para ofertar-lhe a potestade dum ramo de poesias bem olentes, colher flores que estariam bem contentes em comunicar-lhe a complexa criação. Bastaria um pouco de desejo para criar asas, sobrevoar casas, oceanos, o Tejo... e levar um céu azul (ou cinéreo) numa aquarela para com ele descortinar tua janela, levantar o véu de teus olhinhos (tão belos) para te mostrar, ao som de um violoncelo, a poética de um instante-passarinho.
Far-me-iam minhas asas, destarte, uma gaivota; mudaria de meu vôo a rota tendo o céu e o Tejo por estandarte, apenas para mirar tua face e sorver os poemas de teus olhos, brilhantes e plenos de mar (de rosas, e também de abrolhos). Far-me-iam meus lábios, destarte, brisa o vento que se suaviza ofertar-te-ia (com mais sinestesia que com arte) os beijos do final da tarde, quando o sol, sem alarde, vai-se pôr.
Se não tenho o sabor deste encantamento, acho que naquele mágico momento em que as asas da gaivota que sobrevoava o Tejo te comunicaram meu ser, pude conhecer-lhe o gosto. Minha poesia fez-se eterna na lembrança em que me fiz presente, na gaivota que te olhou o rosto e se fez permanente nas asas olentes destes versos, que misturaram para sempre os nossos (tão contíguos e descontínuos) universos.
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O S i l ê n c i o O n t o g e n é t i c o
"São as palavras mais silenciosas as que trazem a tempestade. Pensamentos que chegam com pés de pomba dirigem o mundo."
Friedrich Nietzsche -- Assim Falou Zaratustra
Em silêncio, cresce o homem ao redor do homem. Ele esquece que as coisas não somem: tornam-se. As coisas ornam-se de porvir.
A pequena gota anuncia a tempestade que há de vir. A suave brisa já divisa a qualidade do tufão que se insinua. A mulher nua sinaliza o turbilhão dos prazeres incontidos. Naturais, bemóis ou sustenidos, todos os tons, cientes de seus deveres, se fazem presentes nos sons que acalantam.
O que há no mundo? Profundos entes que cantam as suas metamorfoses. Um campo de múltiplas psicoses, últimas escleroses. No mundo há os rios que se transformam, os banhos que se renovam, perceptos que ganham forma, como os de Heráclito. O ser no mundo se apresenta apenas como uma efemeridade, uma singularidade pronta a tornar-se. Um processo aponta e faz o mundo, traz o fundo do sem fim, o estopim da poesia.
Uma sinfonia começa, às vezes, com uma breve e desconexa melodia. Um homem começa sua vida numa célula. Uma libélula lida primeiro com o seu estado larva. Os amores são banhados primeiro no véu da ansiedade. Uma longa saudade é sentida dia após dia.
O silêncio de um pensamento o espalha do momento concebido ao átimo átomo de um novo mundo construído ao fundo de nós.
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F o g o a n d a l u z
Verde que te quiero verde.
Verde vientos. Verde ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Federico García Lorca Romance Sonámbulo

Debulhada está minh'alma, como o trigo. Este som faz isto comigo, e perde a palma de minha mão no fogo andaluz. A guitarra seduz, plange a voz que canta, encanta a voz que chora, que lamenta o longe. Em algum onde, lá em Andaluzia, a poesia ainda vive como outrora.
Agora, não é preciso visitar Córdoba nem conhecer as ruas de Sevilha. Minha alma palmilha estas estradas que diviso, pela poesia de um tal Federico, pelo rico som daquelas paragens, daquelas miragens espanholas, daquelas castanholas tão ciganas, tão gitanas, tão sacramente profanas.
Festa pela fresta dos sentidos, esquecidos nos vagares destes campos. A viola pelos lares de meus cantos penetra o rubro sangue e a rubra rosa em mim. Ai, Sevilha, tudo que sei de tua lua prateada não aprendi nas tuas ruas, mas nas minhas. Meu pé não te caminha, mas o faz os meus sentidos, confundidos na lubricidade, na lascívia deste cello que imita a tua voz.
Na foz lânguida deste meu rio, forma-se o teu mar viril. A virilidade destes acordes, destas vidas, é contraste em minha tibieza. Somente nos encontramos na beleza de alguns versos, que eu só sei pressentir por carpir minha fraqueza e desejar a aurora deste outrora que nunca tive, mas vive latente a latejar sem fim, sem mim... que vive quente como uma boca carmesim.
Minha sensação é estranha, ao mirar o barco, que descreve um arco sobre o mar, e o cavalo na montanha. É como se a bailarina espanhola, na manhã pequenina e sem fim, se despisse pagã e eternamente p'ra mim.
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M a r d e H i s t ó r i a s
o u
A B i b l i o t e c a d e R o s a n a
Para Rosana
A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono e a circunferência é inacessível.
Jorge Luis Borges -- A Biblioteca de Babel
O globo prenuncia voltas ao mundo. Aprofundo-me na poesia, na prosa, nas dúzias de rosas que permeiam as páginas plurais destas ávidas estantes, que recheiam as imaginações com constantes pérolas.

Coloridas capas, capítulos, contos, etapas da história de Rosana, que preenche sua memória travando diálogos impertinentes com seus livros. São, sobretudo, belos. São singelos nos seus amores, nas suas dores, nos sabores e odores que silentes exalam. Rosana veste seus trajes de banho, despe-se deste mundo às vezes estranho e mergulha em seu mar de histórias.
Seus autores, seus amores, seus olores imiscuem-se. Na retina, fatigada de tanto pó estéril, formam-se regaladas imagens multicores, de um simbolismo etéreo e permanente em sua volatilidade. Ao longe, onde uma saudade anda perdida, nova vida já se ergue na potência da vontade.
Sua biblioteca é infinita, pois não se pode banhar duas vezes -- meu pensamento recita -- nas águas do mesmo livro. Sem permanência possível, sensível é a mudança, a dança dos sentires, dos devires, dos sentidos. Os caudalosos rios, torrentes de letras quentes, renovam suas águas e nossos olhos, abrolhos de nossa alma.
Há mil caminhos a serem percorridos, ouvidos na biblioteca. Além disso, nesta sagarana, cada livro lido a alma de Rosana disseca...
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P e r f i l
Sou dado a sonhos altívolos. Em meu nome, trago as asas de meus mais profundos desejos de liberdade. Deslumbro-me com a claridade do sol e a altura do vôo. Afogado na aspiração de ser alado como um deus, sou pagão desde a origem dedálea de meu nome.
Sou afeiçoado a sons altíssonos. Em mim, trago ambições cerzidas de intensas ânsias elevadas. Descubro-me vário sob a luz lunar e o sublime êxtase de um acorde. Acossado no desejo de ser como Orpheu, sou aedo desde a origem labiríntica do que é meu.
Ícaro sou eu, homem feito das fibras intrincadas do desejo. Recuso toda advertência que castra o vôo, mesmo pagando com a morte a ousadia. Digo isso porque há muitos tipos de mortes em vida, muitos preços por ousar viver. A vontade de potência no mais alto grau desejante jamais é lassa, mesmo quando lhe grassa a lassidão. E eu só vivo da vontade de potência.
Este sou eu: Ateu, epicureu, nunca filisteu. Aedo alado, desejo flagrado e deflagrado. Sim, este sou eu...
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